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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A PESSOA E O CERTO ALGUÉM

   O sujeito caminhava pela avenida movimentada, indiferente a todos. Viu que sob a velha ponte que dividia a cidade, uma família, excluída do sistema, fazia daquele lugar seu abrigo. Quis ser mau, egoísta, virar as costas e fingir que tal cena não estava ocorrendo, bem ali, à sua frente. Não conseguiu... Ao se virar, sentiu um aperto no peito e, na ponta do calçado novo, uma gota de lágrima caiu... Notou que chorava. Tirou os óculos de grau para enxugar os olhos malcriados, desobedientes e constatou que sem aquelas lentes corretivas era completamente cego. Decidiu então jogar fora aquele objeto que desnudava o mundo e o fazia se sentir culpado... Saiu cambaleante, escorando em muros e sarjetas a fim de chegar logo em casa, sem precisar ver o que não queria, sem precisar chorar o que não devia, sem precisar pensar em caridade, no próximo ou em qualquer coisa do gênero... Tropeçou em algo que lhe disse “Hei! Cuidado!”. A queda foi instantânea, súbita. Caiu e ali ficou. Sem forças, sem ânimo, sem trabalho e agora abandonado... Entregue ao acaso...



   Doutro lado da rua, uma pessoa, acompanhada de um certo alguém, fez um pequeno comentário: “Nossa! Como vem aumentando o número de desabrigados neste país..."


   A pessoa que fizera o comentário também usava óculos! Mas o certo alguém que estava com ela nunca necessitou de lentes corretivas... Nunca! Jamais! 

   E foi por isso que o certo alguém questionou a tal pessoa com a seguinte máxima:

  - Tá delirando? Do que você está falando?

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

DUAS CADEIRAS


(Duas cadeiras. Ele. Vizinha)

- E aí?
- Nada ainda!
- Estou dizendo...
- Para com isso!
- Não vai dar certo...
- Você só precisa ser determinado!
- Eu nem sei mais quem sou, nem o que falar!
- Lá vem ela...
- Caramba! E agora?
- Agora você fala tudo... Como combinamos... Preciso ir!
- Não! Fique! O que eu digo?
- Conte tudo! Faça-a lembrar de tudo... Fui...

(Duas cadeiras. Ele. Esposa)

- Oi, amor... Como foi seu dia? Eu estava aqui pensando... Na verdade lembrando... Hoje é uma data muito especial e acredito que por conta dessas suas correrias você... Como? Não... É claro que não fiz a janta... Era exatamente sobre isso que eu queria... Amor... Posso falar? Tá bem, fala! Desculpa... Verdade? Você disse jantar fora? Graças a Deus! Eu sabia que você não havia esquecido e... Como assim sozinha... Eu sou seu marido! Volte aqui... Volte aqui! Hoje é o aniversário do nosso...

(Duas cadeiras. Ele. Batida de porta...)


terça-feira, 16 de novembro de 2010

NA SALA DE AULA


(Uma mulher está trancada em uma sala de aula que, assim como todas, não é usada pra mais nada. A mulher está com um giz na mão, rabiscando a lousa, o chão, a parede, as carteiras... Lê, em voz alta, tudo que escreve. Vê no chão uma laranja. Corta-a com os dentes, procura algum caroço e, ao encontrá-lo, começa a divagar)

MULHER: Sabe o que é isso? Um laranjal.  (Põe na boca o caroço, mastiga um pouco e depois o cospe fora) Havia um campo na minha boca. Cuspi uma plantação inteira no canto da minha ignorância (Para. Olha ao redor) Vocês já estão prontos? Prontos pra me receberem? (Leva a mão à cabeça) Que Deus te abençoe, minha filha... Aleluia! Vai com Deus! Viva a gramática governativa, prescritiva, suicida... (Começa a falar enrolado, depois retoma, pegando outro giz) Cada palavra aprendida é a oportunidade de mudar o mundo à minha volta... Mudar... (Para a carteira vazia) Você quer ser você mesmo? E você, quer ser você mesma? (Pega um espelho que estava jogado no chão) Seja algo melhor do que ser você mesmo (Olhando pra cima) Ter tudo na vida? Quem quer ter tudo na vida? Quem teve tudo na vida? Onde guardarei tudo que quero? Vou guardar no cofre da minha tumba! Quem me quis? Onde guardei minha última ilusão? Dentro de mim... Mas não contei pra ninguém... Só pra mim mesma, posto que sou ninguém! (Diante do espelho) Hipócrita! Criaste provas de aritmética em vez de coragem. O medo só existe quando se crê que o Estado é justo... Há muito que temer... Eu... Eu não... Eu não sou eu... Não sou ego... Sou pura... Santa... Decente... Docente... Um doce... Tia... Dona... Filha da...  (Cutucando o dente) Diacho... Caroço de laranja no dente. Laranjal inteiro na minha obturação... Agora tenho um hectare na minha boca... Um hectare que não uso pra nada... Um hectare preste a ser invadido... Invada-me! Desde que seja de língua (beija a lousa).

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Comédias da vida exposta...

O belo céu de outono era o que eu mais precisava naquele momento. Um céu que oferecia a paz que há muito não sentia. Não pude contemplar as nuvens que anunciavam um prenúncio de chuva. Aquele momento era único, era a minha morte. Minha tão sonhada morte.
Eu ali estendido naquela avenida movimentada, que deixara de sê-la, por minha causa. Tudo parado por conta de um acontecido que aconteceu tão rápido a ponto de nem sentir o choque da batida, sequer meu corpo fora lançado meia quadra longe. Apenas perdi os sentidos e caí ali mesmo. Tudo parou, todos deixaram seus afazeres para me ver ali dando o último suspiro, mas não, eu ainda respirava.
Quando abri os olhos, o céu. Aquela imagem nublada foi se perdendo, devido às centenas cabeças curiosas que foram se enfiando diante de minha visão.
A sirene do resgate, um falatório inaudível, um sujeito de nariz avermelhado adentrando-se em meio à multidão, gritando palavras chulas e dizendo “pobre infeliz!”
Nunca estive melhor, pensava comigo mesmo. Afinal, eu estava morto!
“Ele está vivo!” Foi o que o tal sujeito do nariz vermelho gritou, emendando um baita palavrão. Notei que não era um sujeito qualquer, era um palhaço. Não no sentido pejorativo, mas é que aquela figura lembrava a minha infância e...
As pessoas engravatadas ao redor do meu corpo continuavam a contemplar minha tragédia em meio à gargalhada embriagante daquele sujeito que falava sem parar: “pensou que ia se livrar do aluguel?!”... E ria, feito uma hiena...
Como ele sabia que eu pagava aluguel? Isso me fazia crer que de fato tudo havia acabado. Eu estava doutro lado da vida e esse bonachão colorido nada mais era do que um anjo exótico.
Impossível! Duvido que anjos conheçam tantos palavrões assim. Seria, quem sabe, o tinhoso? Não sei... Talvez... Mas o que me vem à memória é que houve momentos em minha vida em que, estando assim, meio de bobeira, um xingamento hilário surgia em minha mente corroída pela preocupação e eu começava a rir. Rir sem parar... Isso me dava uma sensação de leveza... Seria ele o responsável por tal pensamento que me divertia feito uma criança? Aquilo me ajudava a esquecer as minhas angústias e me relaxava de tal forma que nem culpado me sentia pelo pensamento de baixo calão. Se é que eu deveria me sentir assim... Acho que o sujeito de nariz vermelho era mesmo um anjo e eu fui parar no céu... Que céu estranho!
Estranho porque eu ainda estava ali! Ali deitado, ouvindo o vozerio de curiosos adormecidos...
De repente, do nada, senti minhas pernas. Escapei da morte, pensei... “Mas não dos cobradores”, emendou o palhaço, gargalhando da piada sem graça que fizera. Mas não ficou apenas nisso, o clown, num súbito gesto inconsequente, levantou-me daquele chão, segurando-me apenas pelo colarinho, da camisa amassada (que eu me esquecera de passar) e, aos berros, elucidava uma série de sermões ofensivos que eu preferia não ter nascido a ter que ouvir aquilo: “Meu filho, o show acabou, volte à realidade dos fatos dessa sua vida corriqueira, repleta de sonhos incongruentes, te amos sem ereção e te quero não te quero pra sempre nunca, meu ódio amor... Você sabe do que estou falando?”
Não! Não vi mais nada! Simplesmente acordei no leito do Hospital que tanto critiquei, pela falta de médicos. Uma enfermeira estrábica sorria... “São só alguns exames, meu filho! Logo estará liberado”
- Cadê o palhaço?
- Que palhaço?
- O anjo! Sabe, ele é um anjo diferente, ele se veste de palhaço...
- Calma, meu filho! Você bateu a cabeça...
Ploft! (...)
A enfermeira aplicou um sossega leão em mim. Dormi uma eternidade. Quando acordei estava com a cara em cima da papelada, na mesa do escritório... Era apenas um sonho... Tudo não passara de um sonho que não me sai da mente.
O engraçado é que há dias tento imitar aquela ingênua gargalhada indecente do anjo-palhaço, mas não consigo...
Pois é, estive com um ser divino que, ao invés de me conduzir ao céu ou ao inferno, preferiu dar-me uma nova chance! A chance de continuar vivendo as comédias da vida exposta! Espera aí! Comédias da vida exposta?