Mostrando postagens com marcador Esquetes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Esquetes. Mostrar todas as postagens

sábado, 2 de outubro de 2010

“A mui grande paixão Del Rei Taínha – O Rei do Caramelo”

(Praça central. Um mendigo está deitado num banco. De repente, é jogado um guarda-chuva grande no palco. Curioso, o mendigo abre o objeto. Subitamente, um som forte se ouve. Variação de luz. Barulho ensurdecedor. Efeitos que inferem um tufão. Mendigo tenta se proteger. Variação de luz se intensifica e uma explosão se ouve. Em meio a esse estouro aparecem quatro seres estranhos: Autoritário, Engraçado, Confuso – que traz um pequeno bumbo e, por fim, Melindroso – o mais chorão. Estão caracterizados com roupas referentes a outro tempo e usando máscaras. Aparecem assustados, um pouco zonzos com tudo e ficam olhando ao redor, sem entender nada. Mendigo, agora assustado, acompanha de perto toda a ação da trupe)

Confuso: (Olhando ao redor) O que houve conosco?

Melindroso: (Tremendo de medo) Não me lembro...

Confuso: (Olhando as mãos) Cadê? Aonde foi parar? (Engraçado descobre o público e começa a encará-lo)

Engraçado: (Encarando o público) Vejam isso... Não nos informaram que estariam aqui... (A trupe também encara o público. Mendigo fica procurando enxergar o que eles tanto encaram. Começa um falatório entre o grupo, todos ficam nervosos, ansiosos – Ninguém percebe a presença do mendigo)

Autoritário: Quietos! Presentes todos estão, mas este recinto... (Olhando) não me parece familiar...

Confuso: Não parece ser o bosque...

Autoritário: Tempo é a necessidade de nossa montagem e se aqui estão é porque este é o lugar, bem como o momento para nos apresentar...

Melindroso: Não está pronta, estamos em meio a um processo... De ensaios...

Autoritário: Cala-te! Decerto, vieram para vê-la!

Melindroso: Não é prudente... (Autoritário pega Melindroso pelo pescoço que fica tremendo de medo)

Autoritário: (Enfático) A peça está pronta e tenho dito! (Para todos) Os papeis já estão distribuídos, nada é mais salutar do que mostrar a mais nova montagem de nossa trupe aos cavalheiros e suas respectivas damas...

Engraçado: (Grita) Que comece então o espetáculo! (Confuso toca o bumbo. Mendigo intervém)

Mendigo: Só um minuto aí... Quem são vocês e o que estão fazendo aqui?

Autoritário: (Pergunta ao Engraçado – apontando para Mendigo) Conhece-o? (Engraçado faz que não. Para Mendigo) Nobre colega, não há tempo para prosa, estamos em meio a uma apresentação mui importante, não temos nenhuma moeda...

Mendigo: Moeda? (Quando vai tentar explicar, Autoritário intervém)

Autoritário: Silêncio! (Para todos) Comecem o espetáculo!

Confuso: Senhoras e senhores! É com muito orgulho que apresentaremos a maior peça de todos os tempos. Com vocês “A mui grande paixão del Rei Taínha – El Rei do Caramelo” (Todos aplaudem)

Mendigo: (À parte) Rei Taínha? Caramelo? (Todos aplaudem. Confuso toca o bumbo, todos os atores se preparam. Engraçado põe a coroa e se mostra triunfante)

Confuso: Abram alas para o Rei! (Todos reverenciam e depois aplaudem) Bravo! Bravo!

Melindroso: Majestade! Creio que o dia está lindo e...

Engraçado: Um momento!

Autoritário: Senhores, homens de boa fé, o rei irá falar.

Melindroso: Ó grande rei do ouvido, somos todos caramelos...

Engraçado: Eu o grande... (De repente, Melindroso boceja. Um som sutil. Uma chispa de luz. Algo estranho acontece) Eu...

Confuso: Sim?

Engraçado: Eu... Eu... Quem sou eu? (Todos riem, tentando disfarçar o mal-estar e começam a improvisar)

Autoritário: Ó grande rei que incrível vosso senso de humor (Puxa Engraçado de lado) Fala o texto... Estamos em meio a uma apresentação, seu idiota!

Engraçado: Que texto? (Melindroso interfere e improvisa)

Melindroso: O texto, majestade... (Engraçado sente-se perdido. Autoritário faz sinal para os outros continuarem o espetáculo improvisando, assim começam a dançar uma música qualquer)

Autoritário: (Pega o rei pelo colarinho e fala para o público – todo delicado) A história é sobre um rei apaixonado por uma linda camponesa.

Confuso: A bela plebéia morava ao redor do reino e também se apaixonara por ele. (Perguntando ao Autoritário) É isso mesmo? (Autoritário confirma. Engraçado se desvencilha de Autoritário, tira a coroa e vai saindo. Todos correm atrás, sem saírem das personagens, improvisando)

Melindroso: (Chorando) Volte aqui, majestade (Trazem Engraçado de volta)

Autoritário: O que há contigo?

Engraçado: Não sei? De repente esqueci quem sou...

Confuso: O senhor é o Rei Taínha, Rei do caramelo...

Engraçado: Caramelo? Não, não... Espere. Agora estou a me lembrar... Sou o Rei! Rei Édipo! (Muda a postura, a interpretação – dirige-se para os demais que se assustam) Tebanos, meus filhos, por que vindes aqui perante mim com esses ramalhetes enlaçados, suplicantes, enquanto uma nuvem de incenso veste toda a cidade em meio a rogatórios e lamentos?

Melindroso: (Chorando) Que texto é esse? Eu tô com medo...

Autoritário: Senhores! Digam a esse idiota que ele é o Rei Taínha, rei dos caramelos e não Rei Édipo!

Confuso: (Improvisando) Ó Rei Taínha o que se passa?

Engraçado: Sou Édipo, meus pobres filhos, e sei bem demais o que vos traz aqui e o que esperais.

Melindroso: (Enxugando as lágrimas) O que nos traz aqui, ó grande caramelo, é a vontade de comer o rei...

Autoritário: (Para Melindroso) É o contrário, lesma!

Engraçado: Meu cunhado Creonte chegas de longe para trazer a resposta do oráculo... Tebanos, hei de lavar a nódoa deste sangue, e não só pelos outros, mas também por minha causa.

Autoritário: (Improvisando) Ó Rei... Nós entendemos (Pega Engraçado pela calça, leva-o num canto - baixinho) Só que se você não parar com essa tragédia grega eu te esfolo aqui mesmo! (Para o público) Senhores, o Rei está exausto, portanto serás levado até seu aposento real...

Engraçado: Não dormirei enquanto não encontrar o ímpio desta terra... (Autoritário dá um tapa na cabeça de Engraçado que cai. Todos se assustam. Aos poucos vai voltando ao normal)

Autoritário: (Para o público) Dando prosseguimento à nossa história, iremos mostrar o ato mais importante... É o momento em que o Rei se apresenta ao seu povo! (Todos aplaudem. Engraçado vai se recuperando)

Confuso: Abram alas para o Rei!

Melindroso: Vossa majestade necessita de algo? (Todos na expectativa. Silêncio)

Engraçado: Sim! Necessito de minha bela noiva. Vá buscá-la! (Todos fazem festa, aliviados. Melindroso coloca um adereço para se caracterizar de mulher)

Melindroso: Aqui estou, aqui estou, meu amo...

Engraçado: Ó minha bela amada aproxime-se de teu rei (Confuso boceja. Algo estranho acontece)

Melindroso: (À parte) Nossa... Que coisa estranha...

Engraçado: Ó bela, o rei tem algo a dizer-lhe! (Melindroso corre até Engraçado – muda a interpretação)

Melindroso: Ó Hamlet, não digas mais nada! Viras meus olhos para o fundo de minha alma. Lá estou vendo manchas tão negras e tão profundas que nunca poderão ser apagadas!

Engraçado: Hamlet? Escuta, eu sou o rei Taínha e não o Hamlet...

Melindroso: Oh! Não me digas mais nada! Essas palavras como se fossem punhais, entram em meus ouvidos. Pára, querido Hamlet, pára!

Confuso: (Para Autoritário) Agora complicou de vez... O que eu faço?

Autoritário: (Baixinho) Improvisa, improvisa!

Confuso: Ó grande rei vou chamar teu vassalo para levar daqui vossa amada que não está passando bem... (Chamando) Vassalo! (Não aparece ninguém. Fica chamando, mas ninguém aparece) Nobres colegas, sinto em informar, mas não temos nenhum ator que possa fazer um vassalo (Todos ficam preocupados, andando de um lado para o outro. De repente, Autoritário vê Mendigo que está acompanhando tudo)

Autoritário: Veja! Este senhor assemelha-se ao que procuramos... (Mendigo fica sem ação)

Confuso: Senhor! Auxilie-nos! Precisamos de um vassalo... Seremos gratos por tal feito...

Autoritário: (Abraçando Mendigo) Ele aceitou... (Para Mendigo) O que tens que fazer é só improvisar... (Para todos) Continuemos a peça!

Engraçado: Chamem meu vassalo para tirar esta mulher daqui!

Melindroso: Não Hamlet! Como pode?

Autoritário: (Para Confuso) Deixe-me fazer... (Chamando Mendigo) Vassalo! Venha até aqui! (Melindroso empurra Mendigo. Sem jeito se aproxima de Autoritário)

Mendigo: Fala, mano!

Autoritário: Fala, mano?

Mendigo: Vai doido, dá o texto!

Autoritário: Er... Er... Tire essa mulher daqui imediatamente, entendeu? (De repente, Engraçado boceja) Pois ela está... (Autoritário para e fica hipnotizado, olhando para Mendigo)

Mendigo: Que que tá pegando?

Autoritário: Romeu?

Mendigo: Como?

Autoritário: Meu Romeu?

Mendigo: Ah não... Cês tão de palhaçada...

Autoritário: Sou eu, meu Romeu... A sua Julieta (Vai agarrar Mendigo)

Mendigo: Sai fora! (Empurra Autoritário)

Autoritário: Ó Romeu, Romeu! Por que és Romeu? Renega teu pai e recusa teu nome; ou se não quiseres, jura-me somente que me amas e não mais serei uma Capuleto... (Agarra Mendigo)

Mendigo: Me solta (Empurra Autoritário que cai e bate a cabeça. Todos voltam ao normal)

Autoritário: (Meio zonzo) O que está acontecendo conosco? (Nesse momento, a trupe começa a se apressar, a sentir necessidade de apresentar a peça a qualquer custo)

Confuso: Senhores! Vejam! (Aponta o público) Estão aguardando o desenlace de nossa trama...

Autoritário: Vamos. Precisamos fazer brilhar nossa encenação! Continue a história!

Confuso: Estando a bela amada diante de seu rei, em seu pomposo palácio, foi ordenado a todos os súditos que a notícia das bodas fosse divulgada aos quatro cantos... (Todos fazem festa) Assim, o Rei prometera um banquete farto a toda a corte.

Mendigo: Gostei dessa parte!

Engraçado: (Fala enquanto vai bocejando) Fiquem a vontade que... que... que... (Clima estranho se instala novamente)

Mendigo: O que houve agora?

Confuso: (Mudando a interpretação) Estranhem o que não for estranho/ Tomem por inexplicável o habitual/ Sintam-se perplexos ante o cotidiano/ Tratem de achar um remédio para o abuso/ Mas não se esqueçam de que o abuso/ É sempre a regra...

Autoritário: Oras, por que disse essas palavras?

Confuso: (Sem entender nada) Não sei... Eu...

Autoritário: Silêncio! (Para Engraçado) Onde paramos?

Engraçado: O Grande Rei iria fazer seu real discurso a todos no banquete!

Autoritário: (Enquanto fala, vai bocejando) Então continuemos! (De repente, um silêncio)

Mendigo: Meu, que foi agora? Que silêncio é esse?

Engraçado: Não há nada a fazer. Me alegra voltar a ver-te. Acreditava que te foras para sempre.

Mendigo: Eu? Está falando comigo?

Engraçado: Como celebraremos este encontro?

Mendigo: Quê?

Engraçado: Pode saber-se onde passou a noite o senhor?

Mendigo: Na sarjeta. Argh... Por que eu respondi isso?

Engraçado: Onde?

Mendigo: Por aí... Argh... De novo... Que palavras são essas que não sei como veem à minha boca... Fui contaminado pela loucura dessa trupe...

Engraçado: E não te sacudiram?

Mendigo: Sim... Não muito... Ah! Alguém me ajude?

Engraçado: Os de sempre?

Mendigo: Os de sempre? ... Meu Deus, por que estou falando isso?

Engraçado: Quando penso... Sempre... Pergunto-me o que teria sido de ti... Sem mim... Sem dúvida, não seria agora mais que um montão de ossos. É muito para um homem sozinho... (Melindroso começa a correr)

Melindroso: Ah! Chega! (Começa a bater na própria cabeça. Todos voltam ao normal) Estamos ficando loucos... Onde estamos? Para onde vamos?

Mendigo: Precisam se lembrar de onde vêm e por que estão falando textos estranhos... Parecem textos de outras peças!

Confuso: Não compreendo... Textos de outras peças?

Mendigo: Quer saber, vou cair fora, essa história tá me deixando doido... (Quando está saindo, confuso chama-lhe a atenção)

Confuso: Estávamos em uma estrada... Estávamos indo ensaiar... E chegamos aqui... (Mostra o público) Essas pessoas... Vê? Vieram ver nossa apresentação... Temos que finalizar nossa encenação... Todos estão aqui para nos ver...

Mendigo: Espere! Acho que está havendo uma grande confusão... Não há pessoas aqui... Não vejo ninguém...

Autoritário: (Avançando contra Mendigo) Como não vê ninguém?! Não está vendo eles, seu vassalo imundo?! Vamos! A peça não pode parar! (Para Confuso) E você o que está fazendo?

Confuso: Eu preciso encontrar... Preciso encontrar... Cadê ele?

Autoritário: Vamos seu ordinário, quem manda nessa companhia sou eu!

Confuso: Vá para o inferno com sua companhia!

Autoritário: Como ousa gritar comigo?! Pagarás caro por isso! (Puxa um punhal e logo em seguida boceja – tudo fica estranho novamente) Vou acabar com você!

Confuso: (Mudando a interpretação) Um momento! Antes de morrer, quero lhe fazer um grande favor.

Autoritário: (Mudando a interpretação) Um favor?

Confuso: Dar-lhe esta gaita de presente. (Puxa um objeto qualquer)

Autoritário: Uma gaita? Para que eu quero uma gaita?

Confuso: Para nunca mais morrer dos ferimentos que a polícia lhe fizer.

Autoritário: Que conversa é essa? Já ouvi falar de chocalho bento que cura mordida de cobra, mas de gaita que cura ferimento de rifle, é a primeira vez...

Confuso: Mas cura. Essa gaita foi benzida por Padre Cícero, pouco antes de morrer.

Autoritário: Eu só acredito vendo...

Confuso: Pois não. Queira Vossa Excelência me ceder seu punhal. (Pega o punhal e vai em direção ao Mendigo) Agora vou dar uma punhalada na barriga de Chicó.

Mendigo: Chicó? Eu? Eu não me chamo Chicó!

Confuso: Sim. Vem cá Chicó

Mendigo: Hei, não vem não...

Confuso: Deixe de moleza, Chicó. Depois eu toco na gaita e você fica vivo de novo! (Murmurando) A bexiga, a bexiga!

Mendigo: Vocês estão hipnotizados. Estão loucos. Eu não sou Chicó. Vocês precisam acordar.

Confuso: Mas eu não disse que toco na gaita? (Todos começam a avançar contra Mendigo)

Mendigo: Calma... Sai pra lá com esse punhal! Preciso arrumar algo como escudo (Pega o guarda-chuva que caira no palco. Abre o mesmo para se proteger da trupe. Quando Confuso vê o objeto, sai do estado hipnótico – assim como os demais – e joga longe o punhal)

Confuso: (Aliviado) Aí está ele!

Mendigo: Ele? Ele quem? (Pega o guarda-chuva da mão do Mendigo)

Confuso: O livro que ganhei do sábio...

Mendigo: Livro? Eu não estou vendo nenhum livro...

Engraçado: Este mesmo aqui... É um presente de casamento que ficamos de entregar ao Duque, em nome do sábio.

Mendigo: Sábio? Que sábio?

Melindroso: O sábio que encontramos quando estávamos a caminho do bosque

Mendigo: Bosque? Que bosque?

Engraçado: Estávamos a caminho do bosque do palácio do Duque... Íamos ensaiar nossa peça para apresentá-la em seu casamento...

Mendigo: Só pode ser brincadeira isso... Um bando de doido dizendo que estava a caminho de um palácio... Aqui não tem nenhum palácio não... Vocês estão na cidade, em pleno século XXI

Engraçado: Pelas chagas de Cristo! Demos um salto no tempo. Precisamos descobrir como chegamos até aqui...

Confuso: (Para Mendigo) Como este livro foi parar em suas mãos?

Mendigo: Um guarda-chuva, você quer dizer...

Autoritário: É um livro!

Mendigo: Que seja! Isso aí surgiu do nada... Logo depois começou a tal tempestade...

Confuso: Então é isso... (Para a Trupe) Caros colegas, quando estávamos na estrada a caminho do bosque, eu abri o livro. Acredito que ele seja o responsável por toda essa confusão, pois é um livro mágico... Para solucionar esse problema, basta abrí-lo novamente...

Autoritário: O que está esperando? Abra logo esse negócio!

Melindroso: E se não conseguirmos voltar? Para onde iremos?

Engraçado: Precisamos nos unir e levar nossa arte conosco. É a única forma de saber para onde vamos

Autoritário: Devo admitir que tens razão... (A trupe ira se juntar formando uma imagem. Confuso, de frente para o público, vai abrir o guarda-chuva descê-lo na direção do rosto e começá-lo a girar rapidamente. O objeto por ser grande irá esconder a trupe. Variação de luz. Barulho ensurdecedor. Efeitos que inferem um tufão. Mendigo tenta se proteger. Variação de luz se intensifica e uma explosão se ouve, depois, silêncio. Confuso Abaixa o guarda-chuva)

Melindroso: Onde estamos?

Engraçado: No mesmo lugar...

Autoritário: Abra o livro novamente!

Confuso: A bateria dele está fraca

Autoritário: Bateria? Fraca? O que dizes?

Melindroso: E agora, o que faremos?

Engraçado: Vamos aguardar o próximo tufão para pegarmos carona até o nosso tempo. Enquanto ele não vem, acho melhor esperarmos sentados... (Todos se sentam)

Mendigo: Se o tufão não vir, talvez o Godot venha!

Autoritário: Quem?

(...)





quinta-feira, 30 de setembro de 2010

“Seu” José

Senhora: Agradecida pela presença! Pode entrar. Pode ficar à vontade! Não precisa limpar o pé, não! Oi coisa, como vai? Quanto tempo! Cê tá boa? E o coiso lá... O marido... Ficou com a outra? Liga não... A vida continua... Cês num sabe a dor que a família tá passando. É tão difícil... Ô fia, traz cadeira! Cê´stão servidos de café? Ô fia traz café aqui pr`eles! Pode tomar, viu! Tá limpinho! Acabei de passar. Que tristeza minha gente! Que tristeza. Por que fizeram isso com o coitado? Era trabalhador! Coitada! Tá desacorçoada! E tão novinha essa moça... Eu vim aqui socorrer... Sou vizinha dela há muitos anos... É... Pois é... Ele tava voltando do jogo... Só que até agora ninguém sabe o que aconteceu de verdade. Mas Deus é que sabe... Aquela ali chorando tem um fogo... E aquele lá é o marido dela. Coitado, bebe que nem uma égua! Aquele sujeitinho cara de bode é cunhado... Irmão da mocinha... A mocinha que eu mostrei... Esposa da vítima... Mas como eu ia dizendo, esse rapaz é muito estranho... Só anda de gorro na cabeça... Essa aqui é a minha sobrinha. Coitada! Tava no mundo... Mas agora sossegou... Graças a Deus! Pois é... Que triste... Tem que esperar, né... Tão dizendo que foi aquele velho que mora na rua de cima... Parece que tava passando por dificuldade e fez o que fez... Eu tenho um medo daquele velho... Tem cara de tarado... Sabe como é, né, aposentado... Abandonado... E o pior é que ele freqüentava aqui a casa da família... Não digo nada se não aparecer... Olha só! Falou no diabo, apareceu o rabo!

Velho: Tô vindo pra dizer pra senhora os meus sentimentos...

Senhora: É pra ela que cê tem que dizer isso!

Velho: Ah tá... Ô moça! Meus sentimentos!

Moça: O quê?

Velho: Os meus sentimentos! É triste... Mais triste... É vê uma moça bonita como a senhora ficar assim...

Moça: O quê?

Velho: Quer dizer... Ficar sem... Não vai sentir falta? É que a senhorita é uma cabrita muito da nova, num merece viver chorando. Se a senhorita me quiser, eu posso cuidar da senhorita e...

Moça: O quê?

Velho: Eu quis dizer que senhorita precisa se distrair, olhar outras pessoas, ter alguém pra te esquentar debaixo da coberta, pra te pegar de jeito e...

Moça: O que o senhor tá pensando? Ele ainda tá...

Velho: Eu tô pensando que a senhorita precisa de um consolo...

Moça: O senhor me respeite que eu sou mulher direita!

Velho: E agora prestes a ficar solteira... Aquele lá não vai prestar pra mais nada!

Moça: Seu velho feladaputa!

Rapaz: Que é que ta pegando?

Velho: Ta acontecendo nada!

Senhora: Que é isso minha gente? Vamos respeitar o momento!

Velho: Eu respeito... Só num gosto de pirralho metido a macho! Quer saber? Eu vou tomar meu remédio! Até mais!

Rapaz: Vaza!

Moça: Ai, como eu sofro!

Senhora: Isso! Pode chorar, mas não deixe de orar...

Rapaz: Fica tranquila que o pastor já tá chegando!

Homem: Pastor?

Rapaz: É, mano! O pastor! Ele falou que vem!

Homem: Mas cê tem certeza disso?

Rapaz: Orra, véi... Ta me tirando? É claro que tenho!

Homem: Pois eu duvido que esse pastor vem! Ele só ora pra gente rica. Cê acha que ele vem aqui nessa espelunca, orar pra um bando de pobre miserável que num tem nem onde cair morto!

Rapaz: Pois eu aposto, seu pinguço filho de uma égua, que ele vem!

Homem: Eu topo. Eu aposto um litro de pinga! E do alambique.

Rapaz: Maluco! Tu vai se ferrar! Todo mundo aqui é testemunha!

Homem: O que cê tá querendo dizer?

Rapaz: To querendo dizer que você é um pobretão, arruinado, vive nos botecos pedindo pinga... Cê nem tem dinheiro pra comprar se quer uma garrafa de pinga!

Homem: Pois eu tenho

Rapaz: Tem nada!

Homem: Tenho! Num tenho, muié?

Mulher: Tem coisa nenhuma, homem! Pode parar, que cê já tá dando nos nervos. Num promete o que cê num pode cumprir.

Homem: Claro que eu posso cumprir com a minha palavra!

Mulher: E pode como?

Homem: Bem... Eu... Eu...

Rapaz: Tá vendo, é um coitado que num tem nada pra apostar.

Homem: Pois eu insisto na aposta e seu perder, em vez de pinga dou outra coisa!

Rapaz: O quê?

Homem: Minha muié!

Mulher: Seu pinguço lazarento, que cê tá pensando que eu sou?

Homem: Cê é uma meretriz, porque eu sei!

Mulher: Quando a gente chegar em casa cê vai ver só, seu vagabundo! Eu te sustento! Trabalho o mês inteiro pra sustentar essas suas bebedeiras!

Homem: Eu cansei de ser corno, muié. Esse seu trabaio... Eu sei muito bem... Sua quenga!

Senhora: Calma gente, calma! Respeitem as pessoas que estão aqui!

Homem: Eu quero que essas pessoas vão pros quinto dos infernos! Pensa que eu num sei que essa minha digníssima esposa dava pro marido da mocinha aqui! Por isso que tá aí chorando que nem uma perva!

Mulher: Cala a boca!

Homem: E dava memo! Dava por que me contaro. Ela dava dinheiro pra mim ir beber e o safado pulava a janela pra pegá minha muié.

Mulher: Cala a boca!

Moça: Sua vaca veia, por isso que tava chorando que nem uma cadela no cio! Esse tempo todo dando pro meu marido!

Mulher: Era o safado do seu marido que me procurava!

Moça: Safada!

Mulher: Quer saber?! Sou safada mesmo! Dei e dei com gosto! Dava toda noite!

Moça: Então quer dizer que o desgraçado quando dizia que ia bater uma bolinha, na verdade ia bater nessa bola gorda!

Mulher: E que batida! A senhora não cuidava dele... A gorda aqui cuidava. Quem não dá assistência, abre concorrência.

Moça: Sua galinha, piranha! Uma mulher casada saindo com marido dos outros

Mulher: Mulher casada? Casada com quem? Com esse frouxo que num dá no couro?

Homem: Calma aí... Tudo é uma questão de concentração!

Moça: Eu não acredito! Fui enganada! Aquele desgraçado me enganou por todo esse tempo... E eu aqui chorando que nem uma idiota!

Senhora: Calma... Não adiantar xingar... Ele nem tá aqui pra se defender.

Moça: Não tá aqui, não tá aqui... Pois eu vou ligar agora mesmo pro hospital e pedir pra desligarem o aparelho!

Senhora: Calma!

Moça: Calma nada! Eu vou agora pro hospital e antes de eu tirar aquela sonda do nariz do infeliz, vou dizer umas verdades pra ele!

Senhora: Tá vendo, seu pinguço! A culpa é sua!

Homem: A culpa é dessa mulher! Ela que era amante do entubado.

Senhora: Maldita hora que cês foram inventar essa história de aposta, hein!

Homem: Maldita hora nada, a aposta tá valendo!

Velho: Que barulheira é essa? O pastor tava lá fora chamando e batendo sem parar! Não tinha ninguém pra abrir a porta? Ainda bem que cheguei a tempo!

Moça: O senhor, por favor, retire-se de minha casa!

Velho: Vou nada! Quero orar também...

Rapaz: Vamos parando de chorar! Ô rampera! Pega o pudim-de-cana do seu marido e vai se embora daqui! E o senhor também! Seu velho sem vergonha! Pensa que eu não sei que o senhor tá de olho na minha irmã?

Velho: Cala a boca, marginal! Não me faça falar pra todo mundo o que eu sei das suas fitas nas quebradas aí!

Senhora: Chega de briga! Olha o respeito que o pastor chegou pra orar pro safado do moribundo que tá agonizando no hospital... Quer dizer, pro pobre coitado que está passando por um momento muito difícil!

Pastor: Mas o que aconteceu aqui?

Rapaz: Num aconteceu nada pastor, pode orar!

Pastor: Mas como não aconteceu nada? Que bagunça era essa aqui?

Rapaz: Não era nada! Vamos orar antes que o doente vire defunto lá na U.T.I.

Pastor: Não! Eu quero saber o que aconteceu aqui? Eu cheguei e vi uma verdadeira confusão! Não posso orar sem saber o que houve aqui e tem mais...

Rapaz: Reza logo, seu vacilão, antes que eu estoure os seus miolos!

Pastor: Onde você arrumou essa arma?

Rapaz: Eu quero ouvir a oração!

Pastor: Pai nosso que estais no céu...

Rapaz: Isso mesmo! Vamos acabar logo com essa palhaçada! Agora todo mundo pra fora!

Velho: Eu vou ficar pra fazer companhia pra futura viúva!

Moça: Pode parar! Eu preciso ver o meu marido! Vou agora pro hospital! Ele deve tá precisando de mim

Senhora: Até agora tava querendo esganar o infeliz...

Velho: A senhorita não vai pra lugar nenhum! Fica aí!

Rapaz: O senhor tenha mais respeito com a minha irmã!

Velho: Opa! Eu num fiz nada! Ela que escorregou...

Rapaz: Seja lá quem foi que atirou no meu cunhado, eu juro que eu vou descobrir! E quando isso acontecer eu vou...

Velho: Vai nada! Cê num vai fazer nada. Vai trabalhar que cê ganha mais!

Moça: O meu irmão é trabalhador!

Velho: Ficar de aviãozinho da boca de fumo é trabalho, madame?! Sem essa, vai! Até o pastor pensa assim. Quando ele chegou pra orar pro seu marido que está nas últimas, ele comentou: “Tá louco! Orar pra essa família que trabalha pra traficante! Só vou porque o dízimo vai ser alto”

Moça: O senhor falou isso?

Rapaz: Porra, veio! Puta pastor cagueta!

Pastor: Silêncio! Eu vim em nome de Deus! E vamos orar pra acalmar os ânimos!

Rapaz: Eu não vou orar nada, eu vou é acabar com a raça desse velho!

Velho: Tá querendo bancar o matador?!

Pastor: Parem com isso!

Rapaz: Acho melhor o senhor sair da frente, pastor!

Pastor: Vamos parar com isso! Abaixa essa arma!

Rapaz: Só vou abaixar quando eu ver esse velho esticado no chão

Velho: Que foi garoto não puxou o gatilho por que, hein? Tá com medo?

Pastor: Calma, senhores!

Rapaz: Sai da frente pastor! Se não vai sobrar pro senhor!

Pastor: Já que insistem tanto!

Rapaz: Tenha mais respeito com minha irmã! Seu velho abandonado!

Velho: Seu molenga! Vagabundo! Maconheiro! Bandido!

Rapaz: Cê tá pedindo pra morrer! E eu vou atirar!

Velho: Então atira!

Rapaz: Tá duvidando de mim?

Velho: Atira! Cabra frouxo!

Rapaz: Olha, que eu não tô brincando.

Velho: Atira! Seu frouxo!

Rapaz: Vá pros quintos dos infernos!


Tiro - Black out


(...)


Diretor: Corta! Gente! Vamos ter que gravar tudo de novo! Deu pau no equipamento... Vamos lá “seu” José... Levanta daí... Vamos desde o início!

Atriz: “seu” José?

Ator: Caramba! Ele tá sangrando...


(...)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sem Backup


(Um homem de terno e gravata. No escritório. Recebe um sinal do além – Viva-Voz – é a Secretária)
Secretária: (Voz Off) Senhor, é ele de novo.

Homem: Manda entrar (Ele entra) Espera aí que eu vou ao banheiro. Já volto

Ele: (Esperando, conversando consigo mesmo) Tá bom, tá bom... Já sei, já sei... Já foi dito isso... Claro que já! Cada passo é uma oportunidade para mudar o mundo... Mudar... Eu queria ser eu mesmo? Quero ser algo melhor do que eu mesmo?Ter tudo na vida? Quem quer ter tudo na vida? Quem teve tudo na vida? Onde guardarás tudo? Onde guardava? Eu queria ter tudo na vida! Ou melhor, não ter nada! Esse negócio de ter poder... Queria ter medo. O medo só existe quando se crê que o homem é justo... Há muito que temer... Eu... Eu não... Eu não sou eu... Não sou ego... Sou puro... Santo... Preciso dizer isso tudo pra ele... (Silêncio. Barulho de descarga. Volta o Homem, ajeitando a calça).

Homem: Fala, meu filho.

Ele: (Olhando para cima) Senhor! Eu gostaria de...

Homem: Pode olhar pra mim! Desta vez eu permito!

Ele: Senhor, tenho um pedido a fazer

Homem: Não!

Ele: Eu nem pedi.

Homem: Esqueceste que sou o que sou e que naturalmente sei de tudo antecipadamente?

Ele: Mas, senhor, por que não pode me conceder outra missão, algo menos penoso do que estar aqui...

Homem: Aqui onde?

Ele: Aqui, neste lugar...

Homem: Acabas de receber sete pontos negativos em sua carteira por desrespeitar o nosso código de ética. Isso é falta de compaixão, de amor ao próximo!

Ele: Perdão senhor! Eu não falei por mal.

Homem: Mas pensou por mal e o pensamento muitas vezes vale mais! Lembre-se que é salutar velarmos por essas ovelhas desgarradas. Contudo, percebo em vosso coração uma ânsia em falar, em desabafar... Se assim o queres, assim terás... Fale tudo ou cale-se para sempre!

Ele: Tudo, tudo?

Homem: Sim, tudo, tudo!

Ele: O senhor não me castigará?

Homem: Claro que não. Pensas que eu não sei que irá dizer que foste vítima de uma conspiração dos outros?

Ele: E não é verdade?

Homem: Não!

Ele: Bem, quem sou eu pra discordar de vossa onipotência. Mas vamos seguir em frente. Senhor, quem achas que sou? (Homem fica pensando – silêncio)

Homem: Maluf?

Ele: O quê?

Homem: Sarney? Arruda? Erundina? Mickey? “seu” Madruga! Já sei... Bin Laden! Putz... Judas!

Ele: Não se lembra de mim? Sou o teu...

Homem: Meu não. Você é de todas as criançinhas deste mundo... Um camundongo lindo que não larga de seu lindo coelhinho azul...

Ele: Sou uma mistura de Mônica com Mickey?!

Homem: Ah, mas eles não são uma gracinha?

Ele: Que loucura...

Homem: Meu querido, vou te dizer uma coisa. Nas favelas, nos senado, sujeira pra todo lado... Ninguém respeita a constituição, mas todos acreditam no...

Ele: Isso é uma música...

Homem: Pois então, eu inspirei o autor da mesma... Assim como eu o inspirei naquela música (Cantando) Jesus Cristo... Jesus Cristo... Jesus Cristo eu estou aqui!

Ele: Mas se for a banda que estou pensando... Eles nunca gravaram essa música!

Homem: Não vem mudando de assunto não! Todas as nações são boas, o que estraga são as bolsas de valores. E tem mais: tu que escolheste.

Ele: Estar aqui?

Homem: Exato!

Ele: Aí é que tá o problema

Homem: Que problema?

Ele: Teoricamente eu deveria estar a par de tudo, mas acabei sugado pelo Senhor, quer dizer, pelo partido... Não, não... Pela máquina... Acho que não me lembro de mais nada. Por que escolhi estar aqui?

Homem: Todos precisam fazer escolhas...

Ele: (à parte) Essas frases feitas... (Para o Homem) Mas eu não me lembro...

Homem: Qual foi a última manutenção que fizeste?

Ele: Tá querendo dizer Terapia?

Homem: Isso é para os fracos! Digo algo superior a isso...

Ele: Acho que estou me lembrando...

Homem: Então diga! Que manutenção foi feita para cumprir sua missão?

Ele: (Sem graça) Eu acho que foi a formatação, quer dizer, eu formatei o computador da minha cabeça e me esqueci de fazer backup... Acho que é por isso que não sei o que estou fazendo aqui...

Homem: Sinto em lhe informar, mas seu programa está ultrapassado.

Ele: O quê? O que o senhor quer dizer com isso?

Homem: Vem cá! Ta vendo este botão escrito “delete”?

Ele:

Homem: Aperta ele! (explosão) Ai... Esses presidentes só fazem cagadas... (Apertando o viva-voz e falando com a Secretária) Madalena, coloca um anúncio de nomeação para o partido na próxima eleição. Espere! Tive uma ideia melhor, Tira no palitinho com alguns governadores. Quem sair premiado diga que foi graças a mim. Obrigado. (Se espreguiçando) Pelo menos se fizerem coisa errada é aberta uma CPI e eu escapo de aturar contestadores... Enfim, acho que vou tirar uma soneca no Monte Everest, pelo menos lá não tem ninguém pra me azucrinar (Sai)